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Catarina Capa Yupange (Séc. XVI)

Terá sido uma Princesa Inca a primeira Senhora do Paço de Vitorino das Donas?

Na primeira metade do séc. XV, a população das montanhas andinas, na América do Sul, que até então não tinha tido ocasião de se manifestar, expandiu-se e lançou-se à conquista dos Andes. No desenrolar de três reinados e que não foram além de oitenta anos, construíram um Império com mais de quatro mil quilómetros de extensão e perto de doze milhões de habitantes. Foi o Império Inca, iniciado na região de Cuzco, no reinado de Pachacútec Inca Yupanqui, a quem sucedeu Túpac Inca Yupanqui e a este, Huayna Cápac, que morreu em 1527 ou 1528, quando Francisco Pizarro iniciava a sua incursão nos Andes.

 

Iconografia de uma Princesa Inca, numa pintura local do séc. XVIII.
Iconografia de uma Princesa Inca, numa pintura local do séc. XVIII.
Iconografia de uma Princesa Inca, numa pintura local do séc. XVIII.

Francisco Pizarro, que fizera já duas expedições à costa sul-americana, voltara a Espanha e obtivera da Imperatriz Isabel o financiamento de mais uma iniciativa, com a nomeação de Capitão-General e Governador de duzentas léguas da costa de Nova Castela (Peru). Chamou seus irmãos, recrutou um contingente de duzentos e cinquenta homens e zarpou de San Lúcar de Barrameda a 19 de janeiro de 1530. Chegado ao Panamá, ajustou a expedição com o seu sócio Diego de Almagro, com quem depois se viria a desentender, acabando ambos assassinados pelos respetivos sicários. Já bem internado, longe da costa e depois de vários recontros com os índios, Pizarro decide tentar a sorte e conquistar o Peru, o coração do Império Inca.

Entretanto, Huayna Cápac deixara dois filhos, Atahualpa e Huáscar, que se digladiavam, gerando entre o seu povo uma terrível guerra civil. Em 1531, enquanto Pizarro se embrenhava nos Andes, Atahualpa derrotou o irmão, que se proclamara Imperador em Cuzco e tomou o seu lugar. No ano seguinte deixou-se ingenuamente apanhar em Cajamara pelos conquistadores, traçando assim o epílogo, com uma confrontação desigual, em que um povo de trinta mil homens de armas se deixa destroçar completamente por um punhado de cento e cinquenta aventureiros. E nem o resgate que pagou, equivalente a 250 m³ de ouro, lhe valeu. Foi estrangulado, conseguindo in extemis, a comutação da pena de ser queimado vivo, em troca de uma conversão forçada que poderia ser muito útil aos vencedores para a prossecução da conquista. Com a morte de Atahualpa, sucedeu ainda seu irmão Túpac Hualpa, mas também este foi assassinado, por envenenamento, quando os espanhóis caíram sobre a cidade de Cuzco. O saque foi colossal. Cada peão arrecadou cinquenta mil castelas de ouro e duzentos e sessenta e cinco marcos de prata.

A dinastia Inca ainda continuou por mais quarenta anos, sempre brutalmente perseguida pelos insaciáveis conquistadores, até ao regicídio, em 1572, de Túpac Aman.

A miscenização que se seguiu à conquista acabou por ser determinante para caldear os espíritos que mais tarde vieram a gerar novas nações. Em 1570 ainda 96% da população do Império espanhol era de origem ameríndia, mas eram cada vez em maior número, os mestiços, os mulatos e os zambos.

Francisco Pizarro também para isso contribuiu, trazendo cativa uma filha de Atahualpa que lhe deu um filho, falecido muito novo e uma filha, que veio a casar com seu tio Fernando e em cuja descendência se restabeleceu o título de Marquês de Charcas e de Atabillos, que fora concedido ao Conquistador do Peru. Entre os mercenários que Francisco Pizarro recrutou havia alguns portugueses. Um deles era António Ramos, de Viana, que estaria já com ele nas Índias de Castela ou foi alistado em Espanha, na expedição de 1530. Sabe-se que esteve na conquista do Cuzco1 e algum tempo lá permaneceu depois. Quando regressou ao Reino trouxe consigo uma mulher chamada Catarina Capa Yupange, natural daquela cidade de Cuzco, e muito, muito dinheiro, que lhe permitiu adquirir, em 1568, por 750$000 réis, a Quintã do Barco, na freguesia de Vitorino das Donas (Ponte de Lima) - "...vemdeo deste dja pª todo sempre ha ãtº Ramos e ha dona Cateryna capayupange sua molher hora moradores na cydade de llysboa de fora da çydade na freygesia de nosa senhora dos holljibajs..."2.

1. Felgueiras Gaio, no seu Nobiliário, Tít.de Soares Tangis, § 29, diz que António Ramos foi Capitão de InfantarianasÍndias de Espanha.

2. Escritura (2 de março de 1568) de promessa de compra e venda da Quintã do Barco, integralmente publicada no Arquivo de Ponte de Lima, Câmara Municipal de Ponte de Lima, Vol. IV, 1983, pp. 237-240. (APVD).

O Paço de Vitorino das Donas, numa fotografia do início do séc. XX. (Fot. - a.d.).
O Paço de Vitorino das Donas, numa fotografia do início do séc. XX. (Fot. - a.d.).

O Paço de Vitorino das Donas, numa fotografia do início do séc. XX. (Fot. - a.d.).

Entretanto, António Ramos investira muito dinheiro em negócios na Flandres - "... hum connhecimto de como hos llevava pera lhos hempreguuar hem framdes e ho dito bellxhior masyhell hos Careguuara nna sidade de llisboa hem duas barquas Convem ha saber nna nnao llyam dourado mestre guilhem vvezinnho da dita villa de hemver e nna nnao diguarim mestre Jacome Jacome vezynnho da dita villa de hemver..."3.

Testamento (1ª folha) de D. Catarina Capa Yupange (APVD).
Testamento (1ª folha) de D. Catarina Capa Yupange (APVD).

Testamento (1ª folha) de D. Catarina Capa Yupange (APVD).

Passado algum tempo, António Ramos é morto em Viana, com uma estocada - "...sosedemdo matarem no na Vila de Viana ao dito amtº Ramos...". E em 21 de junho de 1581, Álvaro de Abreu, seu genro, Cavaleiro Fidalgo e então assistente na Quintã do Barco, apresenta o testamento4 de "dona Cª Yupamge, que não tinha fº nem fª nem paremte nesta teRa".

3. Escritura (8 de março de 1568) de compra da Quintã do Barco, integralmente publicada no Arquivo de Ponte de Lima, Câmara Municipal de Ponte de Lima, Vol. III, 1982, pp. 98-100. (APVD).

4. Testamento de D. Catarina Capa Yupange (15 de agosto de 1580), integralmente publicado no Arquivo de Ponte de Lima, Câmara Municipal de Ponte de Lima, Vol. IV, 1983, pp. 241-244. (APVD).

O testamento, escrito em 15 de agosto de 1580, abre da seguinte forma - "En nome de ds [...] como boa fyel cristam e desjamdo de salvar minha alma eu dona cª yupamge natural da sidade do cusco partes do peru...". E mais adiante acrescenta - "...he Vrdade q. eu casey na sidade do cusco cõ amtº Ramos meu marido q. ds tem e ao tempo q. com ele casej eu não tinha de meu cousa alguma e nas ditas partes do peru vivy cõ ele sertos anos...". E diz que seu marido dispusera de seus bens e instituíra um vínculo encabeçado em seu genro e lhe pedira que ela cumprisse essas determinações, fazendo testamento em que as validasse. Ela, porém, confessa - "...eu ouve o dito testamto a maõ asy como estava e o sonegei ao dito alvº dabreu e ysto emduzida p. um amtº Rebousa masiel mor q. foj neste cº q. sabya a lymgoa do cusco e me presuadio p. emtersesam de amtº dabreu de lyma e de seus fos...". Daqui se depreende que pelo menos mais uma pessoa desta região foi ao Peru. Doutro passo do testamento - "...ja q. me vya molher de oitemta anos...", se deduz que terá nascido na cidade de Cusco cerca de 1500.

Ermida intramuros do Paço de Vitorino das Donas, actualmente muito degradada, que se presume ser a que mandou edificar D. Catarina Capa Yupange para sua sepultura e de seu marido, o Capitão António Ramos (Fot. - J.G.A.).
Ermida intramuros do Paço de Vitorino das Donas, atualmente muito degradada, que se presume ser a que mandou edificar D. Catarina Capa Yupange para sua sepultura e de seu marido, o Capitão António Ramos (Fot. - J.G.A.).

Ermida intramuros do Paço de Vitorino das Donas, atualmente muito degradada, que se presume ser a que mandou edificar D. Catarina Capa Yupange para sua sepultura e de seu marido, o Capitão António Ramos (Fot. - J.G.A.).

Ainda no seu testamento, D. Catarina manda que tragam da Misericórdia de Viana as ossadas de seu marido para a ermida que ele mandara edificar na Quintã do Barco e que também ela seja lá enterrada. E termina com diversas recomendações, fazendo referência a "quatro panos darmar de framdes novos e uma colcha da ymdia nova mto gramde", a um "jaez de cavallo todo prefto de veludo preto framjado douro e seda novo" e que "os escravos q. fycaraõ de amtº Ramos os trate mto bem e lhes fasa mto boa companhya...". Seriam, também estes, cativos do Peru?

A Quintã do Barco foi o embrião do Paço de Vitorino das Donas. A ermida nada tem a ver com a sua atual capela, que é do séc. XVIII. Poderá ser, essa sim, uma pequena capela, muito simples, que ainda hoje se conserva no jardim da casa. Será lá que descansam o Capitão António Ramos e sua mulher D. Catarina Capa Yupange?

E, para concluir, a grande questão - quem era esta Senhora? Seria, também ela, filha do Inca Atahualpa, uma das Princesas que se sabe terem existido e cuja sorte a História não registou?



João Gomes d'Abreu


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